Van Gogh versus Capitalismo

Uma das consequências mais graves do sistema econômico capitalista é a dificuldade da sociedade em estabelecer um senso crítico diante das diversas manifestações artísticas necessárias para o desenvolvimento político e sociocultural. Cada vez mais, a arte é usada em prol do consumo e assim, vivemos sendo parte desse sistema, ora para dar sentido a nossa existência, ora para garantir a própria sobrevivência.

O filme "Lust for Life", de 1956, (conhecido no Brasil como "Sede de Viver") dirigido por Vincente Minnelli, mostra a vida do pintor holandês Vincent Van Gogh (interpretado por Kirk Douglas) que tinha as suas obras movidas pela realidade traduzidas pelas cores e traçados dos seus pincéis. No longa, entendemos que, em seu processo artístico, o pintor mergulhava nos locais que lhe serviam de inspiração para ter uma percepção mais realista de tudo que apreciava.

Ele pintava sob o céu aberto, capturando os movimentos, o suor, o trabalho nos campos, o cansaço dos trabalhadores, o calor e as cores  de cada elemento tocados pela luz do sol assim como o brilho do luar. Van Gogh registrava o cotidiano, e consequentemente rejeitado pela classe burguesa, que dava atenção para outros estilos mais requisitados. Infelizmente, a vontade de fugir da realidade é um processo crescente, desde antes daquela época até hoje. 

    
Num determinado período da sua vida, Van Gogh foi trabalhar como um missionário em uma região bastante precária, com o objetivo de fortalecer a fé da população. Porém, ao se deparar com tamanha pobreza, ele se viu no dever de ajudar a comunidade. Para isso, contribuiu com seus próprios bens para ajudar os mais necessitados e aos poucos, o artista vai imergindo na miséria. Seu altruísmo foi censurado por outros dois missionários, que advertiram-no sobre sua figura e os seus hábitos pois prejudicavam a imagem da igreja.

Fazemos parte de uma sociedade imediatista que consome desenfreadamente, sem entender, na maioria das vezes, o significado daquilo que anseia. Os objetivos, assim como as relações, são construídos na base do ter pra ser e assim se tornam cada vez mais difíceis de serem supridos. Em decorrência disso, há um esvaziamento afetivo, que muitas vezes desperta no indivíduo a vontade de fugir da realidade, fortalecendo ainda mais o sistema capitalista. Mas a medida que esse sistema avança, cresce também a necessidade de algo a mais, algo que faça a diferença; Um olhar pra ir além da superfície, mesmo que inconscientemente. O que aconteceu com Van Gogh não foi diferente. O artista percebeu a vida a sua volta, sentiu e retratou a realidade que a sociedade tanto insistia em rejeitar. Incompreendido, não teve em sua época, o reconhecimento devido.

Esse processo de busca, naturalmente, fortalecerá também o interesse por um entendimento mais profundo quanto às referências, o estilo e a proposta do conteúdo a ser experimentado. E por essa razão, é fundamental, pelo ponto de vista pedagógico e social, o desenvolvimento do olhar sensível e crítico quanto a elementos artísticos. Em especial, para crianças e jovens.

Diante dessa ideologia imediatista de consumo, dessa crise mundial que esvazia a alma para encher os bolsos, resta ao artista se distanciar da sua essência, ou mantê-la íntegra, enfrentando as consequências da sua autonomia artística. Por isso, seja quais forem as expressões ou linguagens utilizadas, é preciso entender o que realmente é necessário e importante pra viver. Traduzir da arte o que ela quer dizer. Do contrário, como disse Renato Russo: "Nos Perderemos entre monstros da nossa própria criação...".

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